Qual
a importância de o Tangolomango ser realizado pela primeira
vez em duas cidades do Nordeste?
É uma experiência necessária. A idéia
do projeto na sua essência aponta para isso. Mario de Andrade,
que é uma das fontes do Tangolomango, dizia o seguinte: Eu
sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta! O Tangolomango é
isso: uma multiplicidade de sortes. Sortilégio. Fascinação.
O nordeste é a nossa cultura medieval viva. Oração.
O nordeste é dentro da gente.
Nos seis anos de Tangolomango, o que você percebe
sobre a evolução dos grupos da periferia ligados à
cultura?
Há um crescimento qualitativo.
Este ano, o Tangolomango terá espetáculos
em Fortaleza e Recife, além do Rio. Quais os principais critérios
de seleção?
Os critérios norteadores e básicos são: diversidade,
tradição, contemporaneidade, desenvolvimento técnico
e espontaneidade. Mas, o principal é a singularidade.
Pelos trabalhos apresentados no edital, quais as principais
características da produção cultural das regiões?
Dá para traçar um perfil pelo que foi apresentado?
Existem padrões sociais, como o de tomar a linguagem artística
como meio para a inclusão ou ascensão social. Mas
isso não é um problema das pessoas que querem - em
princípio - se manifestar artisticamente em um mundo pleno
de desigualdades. Essa atitude de padronização é
proveniente das demandas geradas por certo pensamento de ação
social e - em alguns casos, de ação de negócio
- que prolifera nos países periféricos e trazidos
por empreendedores e militantes antenados ou oriundos, sobretudo,
de uma Europa desgastada e repleta de sentimentos de culpa e resquícios
de colonização tardia. Mas, isso possui dois lados,
como tudo na vida. É preciso fazer a triagem com cuidado.
Separar o que é amadorismo ou oportunismo, ou mesmo assistencialismo
moralizante, daquilo que é uma oportunidade de desenvolvimento
real para segmentos sócio-culturais que geralmente estão
excluídos dos jogos de produção e de existência
no mundo globalizado contemporâneo.
Fale um pouco sobre o intercâmbio de jovens de várias
regiões do país e de diferentes manifestações
artísticas.
É uma oportunidade, embora de curtíssima duração,
de jovens de uma mesma geração, de um mesmo país
e de uma mesma época, mas com culturas locais diferentes,
de estabelecer contatos, trocas de linguagem, desenvolvimento de
afetividades e convivência comunitária. É um
happening onde se produz conhecimento e se abre sendas para o trânsito
livre da generosidade intelectual e estética.
Como é a criação de um único
espetáculo com todos esses grupos?
Complexo e simples ao mesmo tempo. É preciso estar atento
para a improvisação, o acaso, os insights, a colaboração
individual e coletiva. Não dá para travar, racionalizar.
Mas, é preciso ser rápido e tomar decisões
instantâneas. O que importa no final das contas é o
processo, a troca. O resultado nunca é um produto. É,
no máximo, um estímulo para continuar a viagem. Cada
um nas suas vidas e projetos que virão pela frente.
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